Publicação - 11/Junho/2026
A Era da Desinformação

Quanto mais anos passo trabalhando no esporte, mais percebo que vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para distinguir informação, opinião e conhecimento. No esporte, isso se torna ainda mais evidente. Muitas pessoas acreditam que, por terem assistido, praticado ou gostado de uma modalidade, estão preparadas para ensinar, orientar ou interferir em processos de desenvolvimento que exigem anos de estudo, experiência e observação. Talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa época. A desinformação nem sempre se apresenta como uma mentira. Muitas vezes ela se apresenta como uma opinião dita com convicção, uma preferência pessoal defendida como verdade ou uma crítica feita sem a compreensão necessária do trabalho realizado. O crescimento dos conteúdos digitais e das redes sociais tornou esse desafio ainda maior. Todos os dias, milhares de vídeos, dicas, exercícios, correções técnicas, métodos de treinamento e opiniões profissionais são compartilhados na internet. Alguns possuem grande valor. Muitos não. O problema não está na existência da informação. O problema está na ausência de pensamento crítico ao consumi-la. Um verdadeiro profissional nunca deveria perguntar apenas: "Posso utilizar isso?" Um verdadeiro profissional também deveria perguntar: Isso está correto? Para quem isso foi desenvolvido? Quando isso deve ser aplicado? Onde isso se encaixa dentro do processo de desenvolvimento? Por que isso funciona? Somente depois de responder a essas perguntas um profissional pode tomar uma decisão consciente e responsável. Infelizmente, na Era da Desinformação, muitas pessoas copiam aquilo que veem sem compreender os princípios que sustentam o que está sendo apresentado. Informação é abundante. Julgamento profissional não. E sem julgamento profissional, a informação pode facilmente se transformar em desinformação. Ao longo da minha carreira, aprendi uma diferença importante: O tenista joga tênis. O professor ensina tênis. O treinador desenvolve o tenista. São funções diferentes, complementares e igualmente importantes. O professor constrói os fundamentos. O treinador transforma esses fundamentos em desempenho. Por isso, desenvolver não significa destruir para recomeçar. Desenvolver significa compreender o que foi construído, identificar suas qualidades, corrigir suas limitações e potencializar aquilo que já existe. Infelizmente, nem sempre é isso que acontece. Muitas vezes, processos são interrompidos, modificados ou julgados sem critérios técnicos, sem estudos e sem uma análise profunda das razões que levaram à sua construção. E quem mais sofre com isso não são os profissionais. São os atletas. São as famílias. São as pessoas que investem tempo, recursos, expectativas e sonhos em busca de desenvolvimento. Outra reflexão que considero importante é a forma como a sociedade enxerga o esporte. Milhões de pessoas encontram no esporte saúde, lazer, diversão, aprendizado, inspiração e qualidade de vida. Assistem a jogos, acompanham atletas, matriculam seus filhos em escolas esportivas e reconhecem a importância da atividade física para o desenvolvimento humano. Ainda assim, nem sempre o profissional do esporte recebe o mesmo respeito dedicado a outras áreas do conhecimento. Celebramos os campeões quando chegam ao topo, mas raramente refletimos sobre os profissionais que ajudaram a construir essa trajetória. A prevenção raramente recebe o mesmo reconhecimento que a cura. No esporte, valorizamos os resultados, mas nem sempre valorizamos o conhecimento necessário para produzi-los. Por isso, deixo uma reflexão simples: Escolha seus profissionais com critério. Procure conhecimento, experiência, responsabilidade e resultados. Depois de escolhê-los, permita que trabalhem. Questione quando necessário. Dialogue sempre. Mas respeite o conhecimento que justificou sua escolha. Na Era da Desinformação, o maior desafio não é encontrar informações. É saber distinguir opinião, experiência e conhecimento profissional. Muito obrigado Fernando Martins